segunda-feira, 6 de julho de 2009

Corre pra árvore, Alice!

Eu ando em turbulência de sentimentos e sensações. Ás vezes, quando isso acontece, gosto de voltar as lembranças da minha infância. Naquela epoca, minha preocupação eram as férias de julho e dezembro que significavam, viajar para a casa da minha avó. Sempre chegavámos no final da tarde. Do portão sentia-se o cheiro de pão, café e todas as guloseimas que eu tinha o direito de usufruir sem me preocupar com a balança. Amava o cheiro da casa da minha avó. Amava o cheiro dela. Nos dias seguintes, não me importava em sair. Prefiria ficar pelo pátio, no meio do seu jardim, mesmo que isso significasse ser picada por formigas ou abelhas. Tinha uma coloração incrivel quando amanhecia o dia : o céu sempre azul celeste, uma brisa gelada com cheiro de pinheiro. E lá eu criava meu mundo. Suas plantas e flores viravam saborosas comidas feita com barro. Sua área, virava minha casa e cozinha. E lá eu passava horas a fio... Depois de arrancar sempre meia dúzias de rosas e margaridas, isso a enlouquecia! Mas até mesmo sua "bronca", era de forma amena, ela dizia :"-Sua gata, tá arrancando as flores da vó! Não arranque as flores da vó, elas demoram pra nascer!" Nesse momento, muitas vezes eu com petálas de margaridas ou rosas na boca, com os olhos arregalados quase rindo, meu avô entrava em cena. Vô Waldemar... Vinha na calma dele, como sempre, sorrindo, me apertava as bochechas e dizia: " - Moranga mole..."
Porque "moranga mole"? Porque eu era branquinha, pálida e ele me apertava as bochechas para que ficassem rosadas. E funcionava. Nisso ele colocava a mão no bolso, me dava um valor x e dizia para atravessar a rua com cuidado e ir no "Seu Nino", comprar "laranjinha" e "pipoca" para parar de fazer as plantas da minha avó como refeição.
Voltava com os braços cheios! Feliz! E ali passava a tarde comendo pipoca, bebendo laranjinha, até chegar o final da tarde hora de tomar banho e seguir para a mesa, tomar o café.
De toda minha infância, o que mais sinto falta é isso. De toda aquela coisa boa e despreocupada. Por isso quando entro em conflito, "subo na árvore". "Corre pra árvore, Alice!". Parece uma coisa a toa isso. Tentar fugir de um "problema". Mas na verdade não é uma fuga. É a busca de uma estrutura. A busca de uma boa sensação vivida em outrora, onde você poderia ter a nítida sensação de "perfeição".
Minha avó faleceu há alguns anos. Eu a vi antes de partir. Conversavámos e não falavámos da doença. Lembro ter me sentido mal em ir assistir "Titanic" no cinema, enquanto a visitava, porque queria passar o máximo de tempo possivel com ela. No dia seguinte contei o filme inteiro enquanto pintava suas unhas. Mãos delicadas, frias... Foi uma demonstração de carinho e agradecimento por todos os momentos maravilhosos em que vivi na infância. No dia de me despedir só consegui dizer algo como : "- vó fica boa logo tá? qdo voltar não quero a senhora nessa cama." Beijei-lhe a testa, pedi sua benção e sai do quarto. Quase aos prantos, porque eu sabia que não a veria mais. E ela no fundo também sabia. Então me permito subir na árvore ás vezes. Relembrar coisas boas, importantes, essenciais. Porque isso me ajuda a lembrar que mesmo difícil no dia de hoje, eu já fui feliz algumas vezes. E essa felicidade, essa alegria de outrora me faz querer ser feliz novamente.






P.S: Saudades vó, muita saudade.



2 comentários:

Sandra Timm disse...

Alice, vc me fez chorar...

Lindo post!

Gii disse...

São coisas boas que fazem a pena lembra e chorar!
E obrigado por tá sempre aqui!