sábado, 15 de dezembro de 2007

Martha Medeiros

"Seria muito bom se as pessoas fossem julgadas pelo que elas são. Mas não é praxe. Geralmente as pessoas são julgadas pelos rótulos que ganharam vida afora, e principalmente pela fidelidade que mantém a eles: se alguém é simpático, tem que ser simpático a vida inteira; se alguém é mão-aberta, que promova bocas livres até o fim dos seus dias, e se é cosmopolita, que não invente de mudar para um sítio de uma hora para outra. Nossa credibilidade está associada à continuidade dos nossos hábitos, pois isso deixa a todos mais seguros, conhecendo melhor o terreno em que estão pisando.
Santa mediocridade. Não há nada mais empolgante do que protagonizar uma mudança. O que passa por instabilidade é, na verdade, uma avaliação individual constante, que nos faz pensar sobre quem somos e o que desejamos para nós amanhã - e chegando no amanhã, reavaliar tudo de novo.
Inevitável citar Lula, o homem que nunca foi íntimo de etiquetas, e no entanto sempre foi o mais etiquetado dos mortais. Rótulos? Carregou inúmeros: comunista, radical, proletário. Lula tinha uma barba preta, Lula vestia camisetas, Lula era um incendiário ao microfone. Era com esse Lula que todos estavam acostumados, até que ele arrancou um por um os rótulos que o estigmatizavam e ressurgiu numa versão paz e amor, com a barba bem aparada e ternos bem cortados, muito menos comunista, muito menos incendiário. Um novíssimo Lula, e ao mesmo tempo o conhecidíssimo Lula, porque se trata da mesmíssima pessoa.
Bem que se tentou dizer que Lula não era confiável por causa das mudanças em seu temperamento e fachada, mas não colou. E não ter colado é prova de avanço da nossa sociedade. Se Lula mudou tanto assim, ninguém ainda realmente sabe, mas tudo indica que está sendo honesto nesta nova versão, como foi em todas as outras. E já começa dando bom exemplo: mudem! Mudem dos 18 para os 30, mudem dos 30 para os 50, mudem, porque desconfiado a gente tem que ficar de quem não muda jamais.
São tantas as informações e vivências que absorvemos durante uma única vida que é impossível que elas não nos façam refletir e alterar nossa rota. Infeliz de quem passa a vida toda sendo fiel ao que os outros pensam a seu respeito."

12:33hs

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