Ainda pequena, eu sabia que um dia você viria. Que seria em um dia de chuva. Era quase como um conto de fadas, uma verdadeira premonição. Algumas vezes no caminho, alguém veio. Eu pensava:
"Será que você finalmente chegou?". E não era. Algo faltava, faltava o dia de chuva. A vida passando, eu vivendo, coisas acontecendo e eu ainda esperando. Quando eu nada mais esperava você apareceu. Trouxe na sua bagagem, todo sonho que eu queria, todo sorriso que acalmava, todo som que me fazia flutuar. E estava chovendo. Frio, chuva, você tinha um coração e mãos quentes. Ali encontrei o refúgio que busquei, toda segurança e vida que poderiam completar a minha vida. E assim, me senti viva, completa e amada. Por um tempo você ficou. E eu realmente acreditei que ficaria na roda viva comigo, enfrentando o que viesse, todos os monstros que surgissem, porque eu te amava, porque você me amava. Mas você não ficou. E eu não pude fazer nada para impedir que fosse embora. Levou consigo, toda a capacidade, tudo que havia de melhor em mim. E eu fiquei. Parada, olhando você ir, sem nada poder fazer. Cai. Não sou anjo, mas me perguntei muitas vezes se minha queda poderia se comparar a queda de um anjo. Me perguntei muitas vezes se era isso que eles sentiam: um abismo escuro, sons desconexos, o vento assobiando, os olhos fechados, e aquela queda que nunca, nunca acaba. Até que ela chegou ao fim. Senti o corpo dolorido, dilacerado, marcado, machucado. E sobrevivi. Totalmente consciente de tudo o que havia passado, mudei. Penso, que as mudanças na vida de alguém devem ser construtivas, boas, mas a minha não foi. A mudança foi construtiva, mas extremamente dolorida. Você veio algumas vezes. Embriagado, confuso, mascarado. E sempre sorrindo. E mesmo assim, toda vez que aparecia, parecia ser meu sol particular, o brilho mais bonito da lua em uma noite. E eu deixei você vir. Erro meu. A cada partida sua uma nova queda, um novo abismo. E eu cansei. Não de você ou de tudo o que vivi com você. Mas dessa situação todas aos pedaços, tudo pela metade, tudo vago, caminhando pro vazio. Pro nada.
E acho tão bonito tudo o muito e o pouco que vivemos que não quero que se torne um nada. Quero que fique guardado no baú das lembranças, na gaveta da memória, página por página da nossa história. Você me ensinou algo. Eu te ensinei algo. Que eu possa lembrar do aperto seguro, quente da sua mão, que é o que mais faz me lembrar de você. Que eu possa lembrar do seu sorriso, do seu abraço do seu toque, sem dor.
Outras pessoas virão para mim. Outras pessoas para você. Que ambos sejamos capazes de sermos justos, corretos e amorosos, mais, muito mais do que fomos um para o outro.
Agora eu posso seguir minha vida, novamente, não porque perdi você. Mas porque um dia, um tempo atrás você fez parte dela.