O cômodo amanheceu vazio. Onde antes havia móveis não havia mais nada. Não que a sensação fosse ruim, era apenas estranha. Sombras de alguns móveis que ficaram tempo demais ainda tinham uma leve marca no chão. Móveis que eram empurrados daqui pra lá, quando era procurado um novo lugar que fosse adequado a ele. Mas hoje o cômodo estava vazio. E nenhum móvel mais lá.
Ela entrou. Olhou, observou o espaço. Sentou-se no meio da sala, pensando que novos móveis uma hora deveriam ocupar o lugar. Mas na verdade, ela nem sabia se ainda queria novos móveis. Observou as sombras no chão e lembrou por quanto tempo aqueles móveis haviam sido importantes e extremamente caros a ela. E em uma noite ela se desfez de todos. Os antigos, e os novos que teimavam em ficar uma hora dentro do cômodo, outra hora do lado de fora da porta. Mas ela estava tão cansada de empurra-los pra lá e pra cá, e sem pensar um dia já exausta, colocou todos para fora. Os móveis mais antigos não tinham mais por que estar ali. Só ocupavam espaço sem uso. Mas ela teimava guarda-los imaginando que um dia suas gavetas e portas poderiam ser novamente abertos por ela. Não pôde. As chaves foram perdidas. Para todo o sempre. Os móveis novos que uma hora ocupavam praticamente todo espaço do cômodo enchendo de beleza e graça, sairam para porta afora. Tudo havia ficado pesado e sufocava. Os móveis estavam intactos. Mesmo os velhos. Sem nem mesmo um arranhão. Mas era ela que estava arranhada. Cansada. Tentou por muito tempo adaptar cores, tamanhos, combinações. E hoje não foi mais possivel.
Ela colocou os móveis pra fora. Os velhos os novos. Não havia mais espaço. Fechou as janelas. Abriu as cortinas. Sentou-se no meio do comôdo vazio. Uma luz lá fora entrava muito tímida deixando uma sensação de quietude no lugar. Olhou todo o imenso espaço que possuia. Sussurrou algo baixinho. Um suspiro. Percebeu o alívio de conseguir escutar finalmente sua voz apos tanto tempo. Observou aquele espaço com os olhos atentos vendo as paredes. Havia esquecido o vermelho bonito, vivo e quente que o cômodo possuia. E o quão grande era. E então percebeu que todo o vazio era necessário. O espaço era preciso. A porta estava finalmente fechada. E aqueles móveis não voltariam mais. Nunca mais.
Ela entrou. Olhou, observou o espaço. Sentou-se no meio da sala, pensando que novos móveis uma hora deveriam ocupar o lugar. Mas na verdade, ela nem sabia se ainda queria novos móveis. Observou as sombras no chão e lembrou por quanto tempo aqueles móveis haviam sido importantes e extremamente caros a ela. E em uma noite ela se desfez de todos. Os antigos, e os novos que teimavam em ficar uma hora dentro do cômodo, outra hora do lado de fora da porta. Mas ela estava tão cansada de empurra-los pra lá e pra cá, e sem pensar um dia já exausta, colocou todos para fora. Os móveis mais antigos não tinham mais por que estar ali. Só ocupavam espaço sem uso. Mas ela teimava guarda-los imaginando que um dia suas gavetas e portas poderiam ser novamente abertos por ela. Não pôde. As chaves foram perdidas. Para todo o sempre. Os móveis novos que uma hora ocupavam praticamente todo espaço do cômodo enchendo de beleza e graça, sairam para porta afora. Tudo havia ficado pesado e sufocava. Os móveis estavam intactos. Mesmo os velhos. Sem nem mesmo um arranhão. Mas era ela que estava arranhada. Cansada. Tentou por muito tempo adaptar cores, tamanhos, combinações. E hoje não foi mais possivel.
Ela colocou os móveis pra fora. Os velhos os novos. Não havia mais espaço. Fechou as janelas. Abriu as cortinas. Sentou-se no meio do comôdo vazio. Uma luz lá fora entrava muito tímida deixando uma sensação de quietude no lugar. Olhou todo o imenso espaço que possuia. Sussurrou algo baixinho. Um suspiro. Percebeu o alívio de conseguir escutar finalmente sua voz apos tanto tempo. Observou aquele espaço com os olhos atentos vendo as paredes. Havia esquecido o vermelho bonito, vivo e quente que o cômodo possuia. E o quão grande era. E então percebeu que todo o vazio era necessário. O espaço era preciso. A porta estava finalmente fechada. E aqueles móveis não voltariam mais. Nunca mais.
Um comentário:
"Para quem tem medo, e a nada se atreve, tudo é ousado e perigoso. É o medo que esteriliza nossos abraços e cancela nossos afetos; que proíbe nossos beijos e nos coloca sempre do lado de cá do muro. Esse medo que se enraíza no coração do homem impede-o de ver o mundo que se descortina para além do muro, como se o novo fosse sempre uma cilada, e o desconhecido tivesse sempre uma armadilha a ameaçar nossa ilusão de segurança e certeza.
O medo, já dizia Mira Y Lopes, é o grande gigante da alma, é a mais forte e mais atávica das nossas emoções. Somos educados para o medo, para o não-ousar e, no entanto, os grandes saltos que demos, no tempo e no espaço, na ciência e na arte, na vida e no amor, foram transgressões, e somente a coragem lúdica pode trazer o novo, e a paisagem vasta que se descortina além dos muros que erguemos dentro e fora de nós mesmos.
E se Cristo não tivesse ousado saber-se o Messias Prometido? E se Galileu Galilei tivesse se acovardado, diante das evidências que hoje aceitamos naturalmente? E se Freud tivesse se acovardado diante das profundezas do inconsciente? E se Picasso não tivesse se atrevido a distorcer as formas e a olhar como quem tivesse mil olhos? "A mente apavora o que não é mesmo velho", canta o poeta, expressando o choque do novo, o estranhamento do desconhecido.
Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já têm a forma do corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos."
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Fernando Teixeira de Andrade in "O medo: o maior gigante da alma"
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