quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

David

David,

Há muito te escrevo, mas as cartas não chegam. Simplesmente porque as guardo todas pra mim. Não é hora certa para enviar. Mas essa é diferente.

David, me tira dessa.

É um pedido simples, para uma resposta confusa, creio eu.
Você vai dizer que, estará sempre ali, por perto, mas que eu preciso resolver isso sozinha. Eu sei. Ancorei as pernas em terras estranhas. Na verdade em areia movediça.
E agora afundo e só consigo gritar, internamente baixinho: 'David, me tira dessa.'
Ando arrastando sonhos, como carcaças velhas, e desejos antigos e tenho medo de não conseguir realizá-los.
Ando entrando em fases negras, daquelas que quero fugir de mim mesma. Ou das pessoas. Ou de mim e das pessoas ao mesmo tempo.
Ando me magoando muito fácil, com coisas pequenas e isso definitivamente não é bom.
Não posso entregar nas mãos de outros, o poder de me machucar.
Isso eu já faço muito bem, e sozinha.
Talvez eu seja somente mesmo um 'esqueleto com pele', sem motivo pra ainda estar aqui, e esse conceito vindo de outrem me ajudou, e muito a perder a vontade de continuar vivendo os dias, anoitecendo e amanhecendo, 
sem falar que, me fez entender a minha insignificância terrena, existencial, ou algo dessa natureza mas isso é outra história e foge do contexto.
A priori, talvez eu deva dar razão ao conceito. E realmente aceitar que sou somente um 'esqueleto com pele'. É, vamos ver no que vai dar. 
Ando na fase de querer entrar no quarto escuro e dele obter só o silêncio.
Mas aí lembro  das promessas que fizemos. Cartões postais vindo de outros cantos do mundo, independente de tempo, sem nos perdermos jamais.
Ainda mantenho a palavra, de fazer algo útil, sincero, prazeroso, cansativo e dolorido, mas com o gosto no final do dia de 'eu consegui'. 
Com todas as turbulências e mudanças repentinas dos últimos tempos, sem falar das escolhas... Ainda mantenho tudo aquilo dito antes um dia, como promessa, porque eu acredito nos seus sonhos e você acredita nos meus.
David, ainda existe pessoas como nós?
Tinha vontade de encontrá-las nas esquinas e becos da vida. Mas tem sido tão difícil...
Nós merecemos a tal dita, confusa e perseguida felicidade, não?
Se bem que a tal felicidade, tenho confundido com, 'respirar aliviada'.
Seria isso algum tipo de felicidade, David?
Acredito que sim. 
Queria te lembrar que não mudei. Não mesmo. Todas as buscas, perdas, ganhos, caminhos certos e errados continuam dentro de mim como antes.
Assim, como todas as pessoas importantes, amadas, encontradas, que cruzaram o meu caminho... Permanecem no mesmo lugar. De antes.
Aquelas de ligação 'almática'( se é que existe essa palavra, se não existe, acabei de inventar.)
Portanto, mesmo que eu estivesse em Sri-Lanka ou Londres ( isso sim seria bom, não?) você permaneceria por perto.
Nada melhor ou pior do que poder carregar alguém ali, dentro do peito.
Falando nisso, tô pensando numa loucura dessas, sabia?
Um plano mirabolante de cair em Londres, ou qualquer lugar desses daqui um ou dois anos. Seria bom, não seria? Seria bom mesmo que Londres fosse bem ali, só dobrar uma esquina, sem ter que cruzar o oceano.
Mas se fosse assim também, não teria a graça da busca e da viagem.

Sinto sua falta todos os dias e continuarei escrevendo, mandarei quando puder.

Saudades, e todo carinho de sempre
                                                               
                                                                                                                                                 
Sofia

PS: Não sei porque, mas pensar que posso ser só um 'esqueleto com pele', me faz pensar que não tenho alma.
Será que estou certa?