quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

A vida

Engraçado como você vive aqui dentro ainda. Porém, tão guardado, lacrado que quando surge de forma inesperada não mais me assusta.
Viver dentro de uma onda de sentimentos é totalmente diferente das horas que fisicamente vai estar por aqui dessa vez.
Portanto nessas horas que entrou em mim, estamos em fusão, em simbiose. Mas não vou deixar voltar toda a tempestade e tristeza de tempos atrás.
Ter você dessa forma em minha vida quase me completa. Parece um tempo necessário de vivência minha, de aprendizado seu. O aprendizado de desejos de cores e sabores e dores que você não compartilha com mais ninguém, somente comigo. O teu corpo conheço centimêtro por centimêtro, como conheço teu olhar e até tua respiração.
Só não entendo porque você vem e vai, da mesma forma como eu venho e vou. Talvez nós sejamos isso mesmo.
A total falta de compromisso, nos deixa livre o suficiente para sermos um do outro. Em nome da liberdade. Porque você bem tenta deixar de vir, mas não consegue.
Da mesma forma que eu juro não ir mais, mas vou. E depois fica resumido nisso. Nossa vida nasce e morre em algumas horas... Até voltar outras e outras horas.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Eu, Alice

“‘Você já adivinhou a charada?’, perguntou o Chapeleiro, virando-se novamente para Alice. ‘Não, eu desisto’, Alice respondeu. ‘Qual é a solução?’ ‘Eu não tenho a mínima idéia’, disse o Chapeleiro. ‘Nem eu’, disse a Lebre de Março. Alice suspirou enfastiadamente. ‘Eu acho que você deveria fazer coisa melhor com seu tempo’, ela disse, ‘ao invés de gastá-lo com charadas que não têm resposta.’ ‘Se você conhecesse o Tempo tão bem quanto eu conheço’, o Chapeleiro falou, ‘não falaria em gastá-lo como se fosse uma coisa. Ele é uma pessoa.’ ‘Eu não sei o que você está dizendo’, disse Alice. ‘Claro que não!’, o Chapeleiro disse, sacudindo a cabeça desdenhosamente. ‘É muito provável que você nunca tenha falado com o Tempo!’ ‘Talvez não’, Alice replicou cautelosamente, ‘mas eu sei que tenho que bater o tempo quando estudo música.’ ‘Ah! Isso explica’, concluiu o Chapeleiro. ‘Ele não suporta apanhar. Agora, se você ficar numa boa com ele, poderá fazer o que quiser com o relógio. Por exemplo, suponha que sejam nove horas da manhã, bem a hora de começar a fazer as lições de casa, você apenas tem que insinuar no ouvido do Tempo e o ponteiro dá uma virada num piscar de olhos! Uma e meia, hora do almoço!’ (‘Eu queria que fosse’, a Lebre de Março disse para si mesma num sussurro.) ‘Isso seria ótimo, com certeza’, disse Alice pensativamente; ‘mas então... eu poderia ainda não estar com fome, você sabe. ‘A princípio não, talvez’, retomou o Chapeleiro, ‘mas você poderia ficar na uma e meia da tarde tanto tempo quanto você quisesse.’” (Lewis Carroll - Alice no País das Maravilhas)

Fã de Marla

Sou fã desse blog, acho mágico os posts. Sem a autorização da dona, posto aqui o texto do perfil dela. Acho que ela não vai brigar certo? rs. Achei lindo, porque me descreveu também.


"Sou composta por urgências: minhas alegrias são intensas, minhas tristezas, absolutas.
Me entupo de ausências, me esvazio de excessos.
Eu não caibo no estreito, eu só vivo nos extremos.
Eu caminho, desequilibrada, em cima de uma linha tênue entre a lucidez e a loucura.
De ter amigos eu gosto porque preciso de ajuda pra sentir, embora quem se relacione comigo saiba que é por conta-própria e auto-risco.
O que tenho de mais obscuro, é o que me ilumina.
E a minha lucidez é que é perigosa (...).
Se eu pudesse me resumir, diria que sou irremediável!"

Marla Queiroz



PS: Minha urgência no momento, o que me dá sede de ar, sangue, sonhos, vida enfim, se resume em uma letra do alfabeto. A primeira letra do alfabeto.

Grandiosa Clarice

Meu isolamento virtual de certa forma foi mais que intencional. Um problema de "pc" me impossibilitará de aparecer aqui por um tempo.
Então, procurando umas coisas aqui, outras ali, achei um texto muito interessante de Clarice Lispector:


“Sou o que se chama de pessoa impulsiva.
Como descrever?
Acho que assim: vem-me uma idéia ou um sentimento e eu, em vez de refletir sobre o que me veio, ajo quase que imediatamente.
O resultado tem sido meio a meio: às vezes acontece que agi sob uma intuição dessas que não falham, às vezes erro completamente, o que prova que não se tratava de intuição, mas de simples infantilidade.
Trata-se de saber se devo prosseguir nos meus impulsos.
E até que ponto posso controlá-los. [...]
Deverei continuar a acertar e a errar, aceitando os resultados resignadamente?
Ou devo lutar e tornar-me uma pessoa mais adulta?
E também tenho medo de tornar-me adulta demais: eu perderia um dos prazeres do que é um jogo infantil, do que tantas vezes é uma alegria pura.
Vou pensar no assunto.
E certamente o resultado ainda virá sob a forma de um impulso.
Não sou madura bastante ainda. Ou nunca serei.”

( Clarice Lispector)